LÚMINA: Energia vital primordial e sutil que emana do ato da criação, considerada a substância motriz de toda a existência biológica e espiritual.
— Ou seja: a energia que habita tudo o que tem vida.
Aquele que foi esquecido
O mundo ainda era jovem, e o céu não passava de uma fornalha aberta. Entre as fendas do espaço celeste, um clarão rasgou o horizonte. Correntes de luz — serpentinas, vivas, ferventes — desceram para aprisionar a figura de um homem. Ou, pelo menos, algo que vestia a pele de um. Pele pálida como o luar. Olhos vermelhos como ferro fundido. Anhangá rugia, movido por puro e absoluto ódio. As correntes o prendiam pelo peito, braços e pernas, fritando sua carne como se a própria luz sentisse asco de sua existência. Sua voz ecoou, rasgando o vazio de forma assustadora."Guaraci! Acha que essa brincadeira vai ser o bastante?"Do alto de um rochedo imerso em névoa, banhado pelo brilho do próprio sol, o Guardião do Dia o observava. A expressão dele carregava a frieza de quem apenas cumpre um expediente burocrático. Guaraci estendeu a mão. A luz obedeceu, comprimindo-se entre seus dedos até forjar uma lança de pura claridade.
"Imaginei que não."A serenidade em seu semblante era cortante. E lançou. O ar gritou. A lança atravessou o peito de Anhangá com um estalo brutal. O corpo da entidade vibrou, rachando de dentro para fora; sua carne virou lenha em brasa, esfarelando-se em fragmentos de energia estática pelo ar. Um silêncio pesado engoliu o cenário. Ao lado de Guaraci, uma luz prateada e suave tomou forma. Cabelos esvoaçando como marés. Jaci, a senhora da noite, aproximou-se em passos lentos. Ela ergueu as mãos e entoou um cântico antigo — uma melodia que carregava o peso inegociável das estrelas:
⌈ Aquele que vigiou a vida, encerre a ronda. Que o sonho de domínio se desfaça. Que ao brilho da lua, o caçador injusto nunca encontre descanso. Ainda que o guardião da mata adormeça sob a terra fria.⌋O corpo de Anhangá finalmente cedeu. O tinido das correntes afrouxou, mas não parou. Elas sibilavam, misturando-se às fagulhas sonoras da lança de luz que agora sustentava a carcaça. Guaraci baixou a cabeça, o olhar tomado por decepção.
"Obrigado, Jaci."Mas o sangue espesso que escorria da lança abria fendas na realidade a cada gota. De uma delas, uma única centelha espirrou para fora daquele lugar. Pequena, branca e frágil. Mas irritantemente viva. O fragmento assumiu a forma de um cervo de pelagem alva e olhos completamente vazios. Com saltos erráticos, ele atravessou os véus entre os mundos, despencando rumo ao plano dos mortais. Anhangá pereceu. Mas a centelha do cervo branco continuou, deixando rastros silenciosos no plano mortal, aguardando o momento em que velhos olhos voltariam a se abrir.
A última manhã na Aldeia
A lâmpadas de cristal com filamentos que lembram raízes luminosas, dispostas nas paredes da Arena Ancestral ainda começavam a despertar, oscilantes, variando a cada rajada de ar que cortava aquele lugar. Até que em um momento de paz, elas estabilizaram. O breve silêncio fora estraçalhado. Tainara firmou a base no piso de terra vermelha do salão de treino. A borduna desceu pesada, e ao ser arrastada brutalmente, levantou junto consigo um rastro longo e curvo de poeira. CLAACK! O impacto foi repulsivo. A arma parecia gritar e se sacudir na mão da menina. A borduna da Tainara foi defletida, e agora girava pelo ar sem rumo e em alta velocidade, agora vivendo sob total autonomia de quem uma hora fora sua dona. A poeira baixou. No centro dela, Cauã mantinha a postura de contra-ataque com a tranquilidade de quem esperava um ônibus, mas talvez não um golpe letal."A Líder Tacira preferia que eu ficasse e ajudasse o território com algum cargo bacana. Mas eu preciso entrar de vez nesse problema."
"Muito bem!"O rapaz sorriu. Instrutor, parceiro de treino e o único voluntário disponível para servir de alvo. Tainara recuou um passo, refazendo a postura. Os cabelos escuros com pontas arroxeadas chicotearam o ar. Ela retribuiu o sorriso, mas seus olhos ardiam em competitividade.
"E essa base, não vai ensinar?"Sem esperar resposta, ela mergulhou. Uma rasteira agressiva, que não encontra os pés de Cauã, agora, era seguido de um apoio da menina no solo com as mãos, e nasce um novo chute giratório fulminante vindo de baixo, mirando direto no rosto do adversário. Com puro instinto, Cauã abaixou-se, apoiando o peso em só uma das pernas, sentindo o vento do chute raspar a milímetros do seu maxilar. Girou o eixo do próprio corpo, lançando a perna livre num movimento de foice para varrer Tainara do chão antes que ela recuperasse o equilíbrio. Mas ela foi mais rápida. Com um salto de costas, aterrissou com leveza felina. Já entrou em guarda. Lá do alto, o zunido da arma perdida voltou a preencher o espaço. THUD! A ponta da borduna afundou na terra. Cravada, tremendo até a força se dissipar no chão projetado para absorção de impacto.
"Acho que já chega por hoje."Cauã endireitou a coluna, soltando um suspiro pesado. Tainara puxou o ar com força, mastigando a frustração.
"Eu ia acertar dessa vez."
"Ia."
Ele riu solto.
"Como em todas as outras vezes."Ele caminhou até o piso fora da arena, limpando os pés. Tainara o acompanha. Cauã chega até um banco, onde uma bolsa estava largada no canto, e puxou um volume enrolado num tecido. Quando o pano caiu, revelou uma borduna novinha em folha. Recém-entalhada, forrada de texturas hexagonais e finalizada com um pequeno olho de pavão encrustado na empunhadura.
ARTE DE CRIAÇÃO: A Técnica Ancestral do Clã dos Artesãos. Através da modelagem de matéria orgânica e do entalhe de runas de canalização, os xamãs atuam como designers da estrutura do fluxo energético. Quando combinados a pequenos cristais e filamentos condutores de Lumina, os circuitos atingem eficiência perfeita, transformando até armas brancas de madeira em ferramentas letais de alto fluxo de Lumina.
Tainara paralisou. O sorriso tomou o seu rosto."Olha isso..."Ela pegou a peça, testando o balanço. O peso era ridículo de tão perfeito; o Lumina do corpo dela ressonou de imediato ao toque, conectando-se ao seu pulso.
"Você que fez? Ela é incrível. Muito obrigada mesmo, Cauã."Agradecendo apertando o rapaz. Ele retribuiu o abraço, rindo abafado.
"Eu ainda queria terminar de treinar você, mas... você já meteu na cabeça que vai embora, né?"Ela curvou o rosto, pesando a arma na mão.
"Vocês tratam a situação como se eu fosse sumir do mapa pra sempre."Passos ecoaram pelos blocos das arquibancadas perto dali. Era Tacira, a Líder do Clã. O vento balançava seu lenço. Tainara se apressou.
"Bom dia, senhora Tacira."As mãos firmes da mulher buscaram as da garota.
"Bom dia, menina."Um silêncio longo se instalou.
"É chegada a hora de seguir um novo caminho. Mas leve consigo tudo o que aprendeu em nosso território."Ela empurrou uma cesta de fibra de buriti, recheada de pedras, sementes e pequenos frascos selados.
"Estas matérias-primas serviram a gerações. Agora, você tem as suas."Tainara segurou o cesto.
"Eu vou descobrir o que aconteceu com meus pais. E vou voltar pra prestar contas com vocês."Tacira assentiu devagar, os olhos carregando sombras de um passado não dito.
"Que os espíritos te guiem, Tainara."
O chamado
O ar fora do núcleo de treinamento carregava o cheiro de minerais úmidos, marca da climatização profunda do assentamento. Rumo ao andar acima, ela teve que dar espaço para pessoas carregando caixas de materiais numa rampa, mesmo a via sendo ampla."Ó o pesado."Ela toca nas paredes, erguidas de blocos pré-moldados de bioconcreto, bem alinhados em juntas secas que já estavam ali a tanto tempo que talvez nem elas lembravam mais que já não eram parte natural do solo.
"Nuss...Tá frio"Tainara caminhava rumo a via de elevação final da aldeia, deixando para trás a estrutura subterrânea colossal, os conduítes de raízes biocondutoras e o brilho quente das lâmpadas de filamento luminescente presas em suportes de cristais que formavam a verdadeira infraestrutura do Clã. Ao cruzar o limiar de luz natural, a camuflagem geomântica se fecha como um véu. Para qualquer olho desavisado ou satélite corporativo, o território voltava a ser apenas um trecho intransponível de mata virgem. Tainara amassou seus cabelos em um capacete, e subiu em uma trail de motor monocilíndrico de 4 tempos, que parecia grande pro tamanho da menina, com pneus cravudos, suspensão alta, e um pouco suja. Encaixou a chave. O painel digital acendeu em um estalo seco. Ela posicionou o pé no pedal de partida, jogando o peso do corpo em um golpe firme para virar o motor. A máquina respondeu de pronto, sustentando uma marcha lenta cheia e contínua que fez o quadro de aço vibrar sob o assento. Sem olhar para trás, soltou a embreagem. A aceleração cortou o silêncio da saída, e no reflexo do retrovisor o verde dos assentamentos foi dando lugar à extensão fria do asfalto. Ao chegar no seu ponto de apoio na cidade, Tainara foi direto para o quarto. Um cômodo caótico, mas ainda funcional. Uma mesa imensa de computador cercada de cabos, um par de monitores largos de tubo CRT, um quadro de cortiça forrado de post-its e livros socados nas prateleiras, tudo sob a luz aconchegante de uma lâmpada de incandescente do teto. Ela amontoava roupas dentro de uma mochila tática. Na alça, um patch com seu nome. Nas costas, um patch de machadinha de fio branco brilhava contra a luz dourada do quarto. Enquanto ela lutava com os cadarços das botas cinzas, a temperatura do quarto caiu. Uma silhueta translúcida ignorou completamente as leis da física e atravessou a parede. Uma ariranha? Uma mulher? Uma mistura espectral e esguia, dona de olhos perturbadoramente serenos.
"Já está pronta?"A entidade arrastou as palavras, sem o menor pingo de urgência. Tainara deu um sorriso de canto.
"Quase, Uyara. Só falta achar um buraco pra socar o notepad que a Academia lá me enviou."Ela espiou o relógio digital em cima da mesa.
"Você está atrasada."
"Eu sei."
"Mas eu não posso sair esquecendo minhas coisas, né? Você não vai voltar pra buscar pra mim."Tainara riu. A mulher-ariranha orbitou a garota, soltando um leve rastro de luz azulada.
"É. É lonjão."Uyara — Um Espírito Guardião. Essas entidades são reencarnações de animais que sacrificaram a vida defendendo seu próprio território. Seus novos corpos são compostos inteiramente de Lumina, pós a transmigração, ganham a capacidade de fluir pelo plano terreno e espiritual.
Primeiro voo
O aeroporto era o retrato perfeito do caos da cidade. Gente indo e vindo, vozes se atropelando em múltiplas frequências, e a luz dos telões refletindo no piso de porcelanato recentemente polido. Tainara estava largada numa cadeira, com a mochila servindo de apoio para os pés. No assento ao lado, sua borduna descansava completamente oculta dentro de um case de transporte rígido."Senhorita é a Tainara, certo?"Um homem com roupas brancas apareceu ao lado dos bancos. Era a burocracia do despacho de bagagem especial.
"Vocês são sempre esquisitos. Olha os guardas daqui, eles já estão incomodados"Sorrindo, ela mostrou a credêncial da Academia Fluminense de Artes Xamânicas e entregou a borduna.
"Ela é novinha, por favor. Não inventem loucuras." "Não faremos"Ele segura o case e a medida que sua mão livre atravessa a superfície do invólucro, talismãs de um papel antigo se formam e selos que parecem incandescer ao serem ativos. Ele parte acenando em reverência institucional. Ao seu lado, Uyara — flutuando invisível para a massa de engravatados e turistas — analisava as manobras dos aviões na pista. No letreiro piscante, o aborrecimento de sempre: Voo 315 – Palmas / Rio de Janeiro – Atrasado.
"Ansiosa?"Tainara continuou fuzilando a janela com o olhar.
"Quem mandou me apressar? É meu primeiro voo."O tom pingava ironia. Soltou um riso frouxo e sem graça.
"Eu até vivi um pouco na cidade, mas meus pais só viviam pulando de expedição em expedição. A logística nunca deixavam me arrastar junto."O olhar dela congelou no próprio reflexo no vidro.
"Já faz tempo que eles só sumiram. A Cristina avisou que, enquanto não acharem um corpo ou uma resposta definitiva, a Academia Fluminense de Artes Xamânicas vai assumir minha guarda."Ela se estica no assento. Tainara fuçou o bolso e puxou um pequeno videogame portátil dobrável.
"Todo mês chega alguma caixa... presentes, um bilhetinho. Pra quem mal me conhece, até que as lembrancinhas da diretora são boas."Uyara apenas manteve um silêncio fantasmagórico ao lado. O espírito lembrou do olhar carregado de Tacira quando os pais foram mencionados. Tainara suspirou fundo e guardou o console.
"É. Também já passou da hora de resolver o que eles começaram. Mesmo não fazendo a menor ideia do que seja exatamente isso."ALTO FALANTE DO SAGUÃO: “Passageiros do voo 315 com destino ao Rio de Janeiro, favor se dirigirem ao portão quatro.” Uyara pairou um pouco mais perto, sorrindo de leve.
"Então, tá na hora."Tainara levantou de supetão, jogou a mochila num ombro, e por uma fração de segundo, encarou o vidro mais uma vez. Lá estava. O cervo branco. Completamente imóvel, encarando-a de volta através do reflexo, antes de ser sobreposto por um transeunte apressado e evaporar como fumaça num dia de vento.
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